As Miragens do Asfalto: Uma Metaphorai Humana a Lembrar
Descarilhamentos de Dor e de Revolta, por Alexandre Mate.
O que será que será/ Que andam suspirando pelas alcovas/
Que andam sussurrando em versos e trovas/ Que andam combinando no breu das
tocas/ Que anda nas cabeças, anda nas bocas/ Que andam acendendo velas nos
becos/ Que estão falando alto pelos botecos/ Que gritam nos mercados que com
certeza/ Está na natureza, será que será/ O que não tem certeza, nem nunca
terá/ O que não tem conserto, nem nunca terá/ O que não tem tamanho
[...]
O que será que será/ Que todos os avisos não vão evitar/
Porque todos os risos vão desafiar/ Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão
consagrar/ E todos os meninos vão desembestar/ E todos os destinos irão se
encontrar/ E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá/ Olhando aquele inferno, vai
abençoar
O que não tem governo, nem
nunca terá/ O que não tem vergonha nem nunca terá/ O que não tem juízo.
Chico
Buarque de Hollanda (O que Será).
Trata-se de um espetáculo de rua, criado pelo Grupo
Teatro Imaginário Maracangalha, de Campo Grande/ MS, cuja pesquisa, para construção
da dramaturgia de texto, tomou como recorte fundante, e a partir de distintos
suportes documentais e de narrativas orais, a reconstituição de alguns aspectos
da vida de trabalhadores ferroviários da antiga Estrada de Ferro Noroeste do
Brasil, dos anos 1970 até a atualidade. Na saga coletiva dos trabalhadores, da
empresa que não existe mais, apresentada por um coro formado por cinco
integrantes, a obra revisita relações de trabalho, destruição de territórios e
de conquistas anteriores, desmontes e privatização (em 1996/ 1997), a coligir
um conjunto obtuso de interesses.
Trata-se de um espetáculo épico, teatralista,
periférico e popular. A obra é épico-documental, pelo recorte temático e pela
estrutura estética, cujas narrativas são apresentadas por coro de artistas,
pelo assunto ser dividido em distintos episódios (independentes e
consorciados), pelo aterramento histórico para adoção de temática determinante
e pela denúncia dos acontecimentos com o sujeito da obra, que colige uma
estrada de ferro (Noroeste do Brasil) e seus trabalhadores, mas também: Baurú,
Campo Grande Ribas, Ponta Porã, Corumbá, São Paulo, Paraguai; é teatralista em
razão de explicitar-se como espetáculo e como jogo com o público; é periférico
pelo uso das vozes, por meio das quais a narrativa é apresentada e
protagonizada. A estrutura épica, por sua divisão em episódios, não tem unidade
estilística e – evidentemente – na confluência das vozes sociais, em debate,
promove distintas funções protagônicas para apresentar seus pontos de vista
sobre um determinado acontecimento; o popular decorre, sobretudo, pelo fato de
a obra acontecer em espaço público aberto, com inúmeras possibilidades de troca
e interlocução real, em razão de as obras populares terem partituras abertas.
Importante acrescentar, ainda, que o popular ocorre também pelo fato de a obra
deambular pelos espaços e centrar-se, no processo processional,
fundamentalmente no trabalho do conjunto criador da cena.
Retomando a criação, do ponto de vista estético,
distintos são os expedientes de que Fernando Cruz lança mão para construir uma
obra a manifestar um estado de demolição (de sonhos, de vidas, de futuro...).
Programas de rádio, tanto oficiais (A Voz do Brasil) como aqueles
regionais e sua programação com músicas caipiras; faixas a literaturizar
acontecimentos e a manifestar palavras de ordem; conciliado com os textos
narrados outros cantados e o uso de algumas coreografias alegóricas, como o
jogo de futebol. O coro de intérpretes, ao longo do espetáculo, assume um
conjunto de personagens, com distintas características alegóricas. Em
determinando momento de greve, antes de a Noroeste deixar de existir, um lindo
momento de greve aparece com todos os integrantes do coro a usar balaclava (ou
máscaras ninja).
A obra foi selecionada a se apresentar na 68ª edição do
FESTA (Festival Santista de Teatro), na cidade de Santos, em São Paulo e foi
programada para ser apresentada na praça dos Andradas. Como o horário de
apresentação foi à noite, como recurso de iluminação foram usados lanternas,
que refratavam as máscaras do elenco.
Ao final do percurso, o conjunto atravessa uma das ruas
da praça e se coloca defronte ao Teatro Guarany (inaugurado em dezembro de
1882), cuja fachada tem inspiração neoclássica. Na fachada do Teatro são
projetadas (efeito de videomapping) imagens em configuração de mosaicos
como a representar túmulos de tantos mortos em vida, para atender aos
interesses do capital e das indústrias automobilístas que pressionaram os
fracos governos (no caso específico do PSDB) para acabar com as estradas de
ferro, com destaque à Noroeste.
Obra de impacto, com
harmonia entre seu assunto (de natureza política) e seus achados e criações
estéticas.
A ficha técnica do espetáculo é formada pelos seguintes
nomes: dramaturgia em processso colaborativo: Fernado Cruz e integrantes do
Grupo; direção: Fernando Cruz; elenco: Fernando Cruz, Fran Corona, Moreno
Mourão, Paulo Augusto Fernandes e Rodrigo Nantes; videomapping: Algo+
Ritmo; arte gráfica: Maíra Espíndola; figurinos: Ateliê Ramona Rodrigues.;
registro fotográfico: Uári de Arruda; produção: Grupo Teatro Imaginário
Maracangalha.












