segunda-feira, 7 de setembro de 2026

As Miragens do Asfalto por Alexandre Mate no FESTA 68

 

As Miragens do Asfalto: Uma Metaphorai Humana a Lembrar Descarilhamentos de Dor e de Revolta, por Alexandre Mate.

O que será que será/ Que andam suspirando pelas alcovas/ Que andam sussurrando em versos e trovas/ Que andam combinando no breu das tocas/ Que anda nas cabeças, anda nas bocas/ Que andam acendendo velas nos becos/ Que estão falando alto pelos botecos/ Que gritam nos mercados que com certeza/ Está na natureza, será que será/ O que não tem certeza, nem nunca terá/ O que não tem conserto, nem nunca terá/ O que não tem tamanho

[...]

O que será que será/ Que todos os avisos não vão evitar/ Porque todos os risos vão desafiar/ Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar/ E todos os meninos vão desembestar/ E todos os destinos irão se encontrar/ E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá/ Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá/ O que não tem vergonha nem nunca terá/ O que não tem juízo.

Chico Buarque de Hollanda (O que Será).

Trata-se de um espetáculo de rua, criado pelo Grupo Teatro Imaginário Maracangalha, de Campo Grande/ MS, cuja pesquisa, para construção da dramaturgia de texto, tomou como recorte fundante, e a partir de distintos suportes documentais e de narrativas orais, a reconstituição de alguns aspectos da vida de trabalhadores ferroviários da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, dos anos 1970 até a atualidade. Na saga coletiva dos trabalhadores, da empresa que não existe mais, apresentada por um coro formado por cinco integrantes, a obra revisita relações de trabalho, destruição de territórios e de conquistas anteriores, desmontes e privatização (em 1996/ 1997), a coligir um conjunto obtuso de interesses.

Trata-se de um espetáculo épico, teatralista, periférico e popular. A obra é épico-documental, pelo recorte temático e pela estrutura estética, cujas narrativas são apresentadas por coro de artistas, pelo assunto ser dividido em distintos episódios (independentes e consorciados), pelo aterramento histórico para adoção de temática determinante e pela denúncia dos acontecimentos com o sujeito da obra, que colige uma estrada de ferro (Noroeste do Brasil) e seus trabalhadores, mas também: Baurú, Campo Grande Ribas, Ponta Porã, Corumbá, São Paulo, Paraguai; é teatralista em razão de explicitar-se como espetáculo e como jogo com o público; é periférico pelo uso das vozes, por meio das quais a narrativa é apresentada e protagonizada. A estrutura épica, por sua divisão em episódios, não tem unidade estilística e – evidentemente – na confluência das vozes sociais, em debate, promove distintas funções protagônicas para apresentar seus pontos de vista sobre um determinado acontecimento; o popular decorre, sobretudo, pelo fato de a obra acontecer em espaço público aberto, com inúmeras possibilidades de troca e interlocução real, em razão de as obras populares terem partituras abertas. Importante acrescentar, ainda, que o popular ocorre também pelo fato de a obra deambular pelos espaços e centrar-se, no processo processional, fundamentalmente no trabalho do conjunto criador da cena.

Retomando a criação, do ponto de vista estético, distintos são os expedientes de que Fernando Cruz lança mão para construir uma obra a manifestar um estado de demolição (de sonhos, de vidas, de futuro...). Programas de rádio, tanto oficiais (A Voz do Brasil) como aqueles regionais e sua programação com músicas caipiras; faixas a literaturizar acontecimentos e a manifestar palavras de ordem; conciliado com os textos narrados outros cantados e o uso de algumas coreografias alegóricas, como o jogo de futebol. O coro de intérpretes, ao longo do espetáculo, assume um conjunto de personagens, com distintas características alegóricas. Em determinando momento de greve, antes de a Noroeste deixar de existir, um lindo momento de greve aparece com todos os integrantes do coro a usar balaclava (ou máscaras ninja).

A obra foi selecionada a se apresentar na 68ª edição do FESTA (Festival Santista de Teatro), na cidade de Santos, em São Paulo e foi programada para ser apresentada na praça dos Andradas. Como o horário de apresentação foi à noite, como recurso de iluminação foram usados lanternas, que refratavam as máscaras do elenco.

Ao final do percurso, o conjunto atravessa uma das ruas da praça e se coloca defronte ao Teatro Guarany (inaugurado em dezembro de 1882), cuja fachada tem inspiração neoclássica. Na fachada do Teatro são projetadas (efeito de videomapping) imagens em configuração de mosaicos como a representar túmulos de tantos mortos em vida, para atender aos interesses do capital e das indústrias automobilístas que pressionaram os fracos governos (no caso específico do PSDB) para acabar com as estradas de ferro, com destaque à Noroeste.

Obra de impacto, com harmonia entre seu assunto (de natureza política) e seus achados e criações estéticas.

A ficha técnica do espetáculo é formada pelos seguintes nomes: dramaturgia em processso colaborativo: Fernado Cruz e integrantes do Grupo; direção: Fernando Cruz; elenco: Fernando Cruz, Fran Corona, Moreno Mourão, Paulo Augusto Fernandes e Rodrigo Nantes; videomapping: Algo+ Ritmo; arte gráfica: Maíra Espíndola; figurinos: Ateliê Ramona Rodrigues.; registro fotográfico: Uári de Arruda; produção: Grupo Teatro Imaginário Maracangalha.

As Miragens do Asfalto por Alexandre Manchini Jr no FESTA 68

 

As cinzas do Velho Éon

Ainda na baixada santista, dentro da programação do FESTA, tive a felicidade de assistir ao espetáculo “Miragens do Asfalto”, do Grupo Imaginário Maracangalha, de Campo Grande/MS.

Começo citando, mais uma vez, o filósofo francês Paul Ricoeur: “o documento é mudo até que se lhe faça uma pergunta”. E, em um país que tantas vezes demonstra dificuldade em preservar sua memória e seus patrimônios materiais e imateriais, e que parece, cada vez mais, ser vendido aos pedaços pelas privatizações, as perguntas feitas pelos atuadores à documentação histórica da AFAPEDI e às memórias transmitidas oralmente pela comunidade de trabalhadores e trabalhadoras da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil fizeram emergir um espetáculo potente, urgente e cortante. 

A Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) foi uma das primeiras empresas estatais a ser privatizada, a partir de 1996. E ironicamente a apresentação, na praça dos Andradas, no Centro de Santos, começou com uma cena belíssima de um trem VLT da Baixada Santista – operado por uma empresa privada, o Consórcio BR Mobilidade! rs – passando na frente dos atuadores, imóveis. 

O espetáculo se organiza em forma de cenas curtas itinerantes, que conduz o público através da praça, cortando o cotidiano da cidade como um trem fantasma de memórias dos trabalhadores ferroviários, a partir de textos com informações históricas e depoimentos das pessoas afetadas com o projeto de desmonte da malha ferroviária brasileira. Esta simples colagem de fatos e narrações sobre acontecimentos da década de 70 nos explicita como a política burguesa ainda opera no país por meio de estratégias que, embora atualizadas, permanecem essencialmente as mesmas. Quando o sino ferroviário toca, o público embarca num trem rumo ao passado, mas que acaba, tristemente, chegando no nosso futuro, estilo Millôr Fernandes: “O Brasil tem um grande passado pela frente”.

A direção de Fernando Cruz e a dramaturgia criada coletivamente pelo grupo, é inteligente nas estratégias de ocupação do espaço urbano a partir da interação dos atuadores com a arquitetura pública e objetos de bastante simbologia acerca do tema tratado: o sino, as lanternas, o megafone e o apito. A própria ação de organizar as multidões era parte do cotidiano das estações ferroviárias. No ir e vir dos faroletes dos integrantes do trabalho, fui transportado para a estação ferroviária de Bauru, na qual passei algumas vezes quando criança.

Enquanto a peça acontecia e os vagões de platéias transitavam pela praça, duas crianças, que vendiam bala na rua, pausaram a engrenagem da realidade que os explorava e embarcaram para assistir o espetáculo. O teatro tem disso, de reivindicar e restituir as coisas novamente aos seus lugares de pertencimento. Assistiram ávidas a cada movimento dos atuadores, tanto que, em determinado momento um deles derrubou as balas que segurava. Acaso simbólico neste atrito entre os mundos sonhados e a realidade insistente.

O teatro Imaginário Maracangalha freou a locomotiva da exploração capitalista urbana em praça aberta por 1 hora. Ali, naquele espaço público, trabalhadores das trincheiras do interior paulista, que se estendem desde 1996, na verdade de muito antes, e atravessam rumo a mais muitas décadas à frente, encontraram-se e reconheceram-se.

Na última cena do espetáculo, os intérpretes atravessam a rua e param, enfileirados, ao som de O Guarani, de Carlos Gomes, com uma videoarte projetada na fachada do Teatro Guarany. A cena constrói uma espécie de metáfora rizomática, na qual diferentes camadas da memória brasileira se interligam, se tensionam e, finalmente, se desestabilizam: a trilha sonora de A Voz do Brasil, que habitou os lares dos trabalhadores por décadas; a referência à obra de José de Alencar que coloca o “bom selvagem” em interação dócil com seu colonizador; o próprio teatro municipal Guarany, de Santos, em sua arquitetura clássica luso-brasileira; tudo sendo desconstruído, deformado e “profanados” – refiro-me ao conceito de Giorgio Agamben de profanação dos dispositivos – pelo vídeo mapping de Maíra Espíndola / Algo+ritmo. O velho Éon derrotado na encruzilhada entre o teatro e a rua.

Assim, Maracangalha afia sua poesia no asfalto para contar a memória da ferrovia do Noroeste paulista. Prova que o teatro de rua vive e pulsa, estremecendo os dormentes do caminho e abrindo uma fissura no concreto que sustenta as engrenagens do capitalismo urbano, porém selvagem, brasileiro.

Alexandre Manchini Jr: Sobre – O Lado Errado do Telescópio - As cinzas do Velho Éon – O Lado Errado do Telescópio


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

MARACANGALHA no FESTA 68


O Teatro Imaginário Maracangalha apresenta “As Miragens do Asfalto”, espetáculo de rua, de pesquisa etnográfica e montagem de cenas curtas itinerantes e performativas, com base em documentação histórica e na memória oral da comunidade de trabalhadores e trabalhadoras da antiga estrada de ferro Noroeste do Brasil (NOB).
A pesquisa etnográfica realizada pelos atores do Teatro Imaginário Maracangalha está integrada às fontes históricas da AFAPEDI (Associação dos Ferroviários Aposentados ,Pensionistas ,Demitido e Idosos), Sindicato dos Ferroviários da NOB e IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) .
O espetáculo apresenta as narrativas cotidianas de vida dos trabalhadores ferroviários da década de 70 até os dias atuais, abrangendo relações de trabalho e a transformação de seu território diante a privatização, especulação imobiliária e desmonte do patrimônio material e imaterial.
O espetáculo também se utiliza do Vídeo Mapping como arte e intervenção urbana com a parceria do grupo Algo+Ritmo grupo de pesquisa em processos digitais de projeto e intervenções urbanas, vinculado ao curso de arquitetura e urbanismo da UFMS que criou as projeções para o espetáculo dando relevo a memória e patrimônio arquitetônico da ferrovia.
A linha férrea conhecida como Noroeste do Brasil (NOB) e apelidada de “Trem da morte” que partia de Baurú/SP, ligava o Oeste de São Paulo ao Centro Oeste do Brasil, com entroncamento ferroviário para duas importantes fronteiras, Paraguai e Bolívia, adentrando o interior da América do Sul, o que gerou o desenvolvimento econômico e social dessa região do interior do país.

FICHA TÉCNICA
Direção: Fernando Cruz 

Dramaturgia : Fernando Cruz em processo colaborativo com o grupo 

Atuadores:Fernando Cruz, Fran Corona, Moreno Mourão, Paulo Augusto Fernandes e Rodrigo Nantes. 

Video Mapping: Algo+Ritmo 

Arte Gráfica: Maíra Espíndola 

Figurino: Atelie Ramona Rodrigues 

Filmagem/Edição e Fotografia: Uári de Arruda 

Este projeto conta com o incentivo da Lei Aldir Blanc do Governo Federal e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e Prefeitura de Campo Grande. 

Apoio: FAPEDI (Associação dos Ferroviários Aposentados, Pensionistas, Demitido e Idosos) e Algo+ritmo (Natacha Miranda, Sol Ztt, Alexandre Radtke, Juliana Trujillo, Gilfranco Alves).


                                             

O Cortejo CAPETIM (Cortejo Cenopoético da Anarcobanda Performática do Teatro Imaginário Maracangalha) ou Cortejo Antropofágico, é uma intervenção de teatro de rua que ocupa os espaços urbanos misturando poesia modernista, música e proezas físicas em um cortejo festivo e político.

O Teatro Imaginário Maracangalha pede licença, pois o CAPETIM vai passar chacoalhando as estruturas da cidade.
Abençoado pela bravura do Deus Pequeno e fortalecido pelas palavras do Índio Profeta, o cortejo transforma o espaço público em um território de denúncia e celebração da vida. Guiada por uma força anárquica e poética, a anarcobanda convoca o público a vivenciar a arte de corpo inteiro, costurando recortes do cotidiano com a potência da poesia modernista — atualizando versos das obras Areôtorare e Sarobá, de Lobivar Matos, além de ecos de Oswald de Andrade.
No compasso da festa e da resistência, o repertório sonoro une músicas autorais do grupo (em parceria com Vinil Moraes) a ritmos como samba-reggae, afoxé, ijexá, funk e marchinhas. Entre gingas moles, corpos brincantes e palavras afiadas, o CAPETIM é um manifesto ambulante: um convite urgente para celebrar a alegria coletiva, a existência plena e a luta pela vida na praça, na esquina, no bar e no meio do povo.

Ficha técnica

Texto: Poemas das obras "Areôtorare e Sarobá" de Lobivar Matos, Oswald de Andrade. Poemas mordernistas.
Encenação: Fernando Cruz e o grupo  
Elenco: Rodrigo Nantes, Fran Corona, Fernando Cruz, Moreno Mourão e Paulo Augusto 
Preparação Corporal: Dora de Andrade  
Adereços: O grupo
Figurino: O grupo
Designer gráfico: Maíra Espíndola
Produção: Ana Capilé

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Resquícios do Tempo



O lançamento da segunda edição da cartilha Resquicios do Tempo: Complexo Ferroviário já tem data e vai acontecer no dia 3 de julho(sexta-feira) a partir das 17h 🛤️

O local de lançamento da cartilha é o Casarão Thomé @casaraothome, um patrimônio histórico de Campo Grande/MS e que faz parte da história da Ferrovia Noroeste do Brasil. O endereço é na Rua 14 de julho, 3169, ali do lado da Esplanada Ferroviária no centro.

O evento contará com palestra do IPHAN/MS, apresentação do grupo @imaginario.maracangalha e videomappjng de @natachaik_ e @solztt , apresentação musical com @aliensputnik, projeção com @natachaik_ e video-performance de @maduflrs. Além disso tudo, teremos a distribuição gratuita da cartilha.

Evento de lançamento
Dia 3 de julho de 2026 • 17h às 22h
Casarão Thomé, Rua 14 de julho, 3169 - Centro
Entrada gratuita

Artista Visual e Coordenação editorial: @syunoi
Produção cultural: @rayannejarcem
Assessoria de Imprensa: @assessoriaarruda
Pesquisa e revisão de texto:
Bruna Costa Dias
Intérprete de libras: Jessé Macedo
Oficinas: @lumar.sant
Performance: @maduflrs
Assistente de produção: @addi.ms
Fotografia: @hannaafrotografa @fotografne_
Videomaker: @duiardo @temily_ec


 

sábado, 20 de junho de 2026

MARACANGALHA na Ruarada da Lua


PROGRAMAÇÃO - MOSTRA RUARADA DA LUA

QUINTA – 25/06
Noite – Abertura
(19h30) – “Histórias sem pé nem cabeça, mas com coração” – com a Palhaça Adelaide – Grita Cia de Palhaças (Londrina/PR)
Local: Galpão da Lua
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SEXTA – 26/06
(19h00) - "Da ponte pra cá: Meninos também choram" – Com Cebotar (Presidente Prudente/SP)
(20h30) “Tekoha” - Grupo Imaginário Maracangalha (Campo Grande/MS)
Local: Galpão da Lua
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SÁBADO – 27/06
(10h) - “Cortejo RuAr” – Galpão da Lua (Presidente Prudente/SP)
Local: Saída da Avenida Brasil com o Calçadão/Finalização na Praça 9 de julho
(11h) “Tomada da Brasil Pelas Artes Públicas” em Memória de Luana Barbosa – Artistas e grupos participantes
(12h) “Mimicalado Show” – Cia Mimicalado (São Paulo/SP)
Local: Praça 9 de julho

(15h) - Roda de conversa - Rede de teatro de grupo do Interior Profundo
(20h) – “Maria Peregrina” – Grupo Soarte (Ourinhos /SP)
(21h30) - “Miragens do Asfalto” – Grupo Imaginário Maracangalha (Campo Grande/MS)
Local: Galpão da Lua
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DOMINGO – 28/06
(17h) “Que festa é essa criatura?” - Cia Incrível Teimosa - Daniele Pezenti (Londrina/PR)
(18h) - “Compadre Morte – Fabricantes e Matulão (Assis, Candido Mota/SP)
Local: Distrito de Floresta do Sul

A Mostra Ruarada da Lua é uma iniciativa do Ponto de Cultura Galpão da Lua, Circus e pontão de Cultura Galpão Cultural. Oprojeto conta com o apoio do Edital Fomento CULTSP PNAB/PNCV Nº 48/2024 – Fomento a Projetos Continuados de pontos de Cultura. E Edital Fomento CULTSP PNAB/PNCV nº 49/2024 – Fomento a Projetos Continuados de Pontões de Cultura.