As cinzas do Velho Éon

Ainda na baixada santista, dentro da programação do FESTA, tive a felicidade de assistir ao espetáculo “Miragens do Asfalto”, do Grupo Imaginário Maracangalha, de Campo Grande/MS.
Começo citando, mais uma vez, o filósofo francês Paul Ricoeur: “o documento é mudo até que se lhe faça uma pergunta”. E, em um país que tantas vezes demonstra dificuldade em preservar sua memória e seus patrimônios materiais e imateriais, e que parece, cada vez mais, ser vendido aos pedaços pelas privatizações, as perguntas feitas pelos atuadores à documentação histórica da AFAPEDI e às memórias transmitidas oralmente pela comunidade de trabalhadores e trabalhadoras da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil fizeram emergir um espetáculo potente, urgente e cortante.
O espetáculo se organiza em forma de cenas curtas itinerantes, que conduz o público através da praça, cortando o cotidiano da cidade como um trem fantasma de memórias dos trabalhadores ferroviários, a partir de textos com informações históricas e depoimentos das pessoas afetadas com o projeto de desmonte da malha ferroviária brasileira. Esta simples colagem de fatos e narrações sobre acontecimentos da década de 70 nos explicita como a política burguesa ainda opera no país por meio de estratégias que, embora atualizadas, permanecem essencialmente as mesmas. Quando o sino ferroviário toca, o público embarca num trem rumo ao passado, mas que acaba, tristemente, chegando no nosso futuro, estilo Millôr Fernandes: “O Brasil tem um grande passado pela frente”.
A direção de Fernando Cruz e a dramaturgia criada coletivamente pelo grupo, é inteligente nas estratégias de ocupação do espaço urbano a partir da interação dos atuadores com a arquitetura pública e objetos de bastante simbologia acerca do tema tratado: o sino, as lanternas, o megafone e o apito. A própria ação de organizar as multidões era parte do cotidiano das estações ferroviárias. No ir e vir dos faroletes dos integrantes do trabalho, fui transportado para a estação ferroviária de Bauru, na qual passei algumas vezes quando criança.

Enquanto a peça acontecia e os vagões de platéias transitavam pela praça, duas crianças, que vendiam bala na rua, pausaram a engrenagem da realidade que os explorava e embarcaram para assistir o espetáculo. O teatro tem disso, de reivindicar e restituir as coisas novamente aos seus lugares de pertencimento. Assistiram ávidas a cada movimento dos atuadores, tanto que, em determinado momento um deles derrubou as balas que segurava. Acaso simbólico neste atrito entre os mundos sonhados e a realidade insistente.
O teatro Imaginário Maracangalha freou a locomotiva da exploração capitalista urbana em praça aberta por 1 hora. Ali, naquele espaço público, trabalhadores das trincheiras do interior paulista, que se estendem desde 1996, na verdade de muito antes, e atravessam rumo a mais muitas décadas à frente, encontraram-se e reconheceram-se.
Na última cena do espetáculo, os intérpretes atravessam a rua e param, enfileirados, ao som de O Guarani, de Carlos Gomes, com uma videoarte projetada na fachada do Teatro Guarany. A cena constrói uma espécie de metáfora rizomática, na qual diferentes camadas da memória brasileira se interligam, se tensionam e, finalmente, se desestabilizam: a trilha sonora de A Voz do Brasil, que habitou os lares dos trabalhadores por décadas; a referência à obra de José de Alencar que coloca o “bom selvagem” em interação dócil com seu colonizador; o próprio teatro municipal Guarany, de Santos, em sua arquitetura clássica luso-brasileira; tudo sendo desconstruído, deformado e “profanados” – refiro-me ao conceito de Giorgio Agamben de profanação dos dispositivos – pelo vídeo mapping de Maíra Espíndola / Algo+ritmo. O velho Éon derrotado na encruzilhada entre o teatro e a rua.
Assim, Maracangalha afia sua poesia no asfalto para contar a memória da ferrovia do Noroeste paulista. Prova que o teatro de rua vive e pulsa, estremecendo os dormentes do caminho e abrindo uma fissura no concreto que sustenta as engrenagens do capitalismo urbano, porém selvagem, brasileiro.
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